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quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

O Amor Quando Se Revela

O amor, quando se revela, 
não se sabe revelar. 
Sabe bem olhar p'ra ela, 
mas não lhe sabe falar. 

Quem quer dizer o que sente
não sabe o que há de dizer. 
Fala: parece que mente. 
Cala: parece esquecer. 


Ah, mas se ela adivinhasse, 
se pudesse ouvir o olhar,
e se um olhar lhe bastasse 
pra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala; 
quem quer dizer quanto sente 
fica sem alma nem fala, 
fica só, inteiramente! 


Mas se isto puder contar-lhe
o que não lhe ouso contar, 
já não terei que falar-lhe 
porque lhe estou a falar...

Fernando Pessoa

Sino da Minha Aldeia

Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma.
E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.
Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho,
Soas-me na alma distante.
A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.

Fernando Pessoa, "Cancioneiro"